Cultura Gaúcha: Ritual de Visitas

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                                                                     Bela União – todas as fotos

Com ensino, pesquisa e extensão,  atuei em meio rural, principalmente com formação de professores para áreas indígenas e para áreas de fronteira, por mais de 30 anos. Convivi com a realidade de professores leigos, e/ou com classes multisseriadas, ou com o isolamento de escolas bem distantes de centros urbanos. Desenvolvi projetos em seis estados brasileiros e  busquei informações em cinco países de área de fronteira. Realidade dura em lugares lindos.

Fui bastante próxima das comunidades e das famílias – fiz amigos de quem lembro com carinho e saudade. Difícil  separar educação e cultura. Difícil pensar em processos educativos sem considerar a cultura do grupo com que se trabalha. Impossível excluir cultura de qualquer lugar que se visite. Já escrevi que um viajante precisa ter olho limpo para perceber as nuances culturais de diferentes grupos, sem comparar ou sobrepor imagens. Comparações limitam o olhar – muitas vezes disse isso a meus alunos.
Estando agora, por um mês, em casa, na região da fronteira do Rio Grande do Sul – alegretense eu me considero – voltei a pensar sobre aspectos bem particulares da cultura gaúcha, no meio rural em que vivo, localizado entre Rosário do Sul e Alegrete, nas vizinhanças do Uruguai e da Argentina. Optei por escrever sobre o ritual de visitas, que tanto me impressionava na Bela União, antiga propriedade da minha família, lugar onde nasci e onde vivi até 15 anos de idade.
Visitas de parentes ou de amigos consolidavam laços interpessoais e aprofundavam vínculos afetivos. Possibilitavam  troca de informações, relatos de novidades e até confidências e comentários da vida alheia. Caprichavam-se nas roupas, tanto de quem recebia quanto de quem visitava. Arrumava-se a casa para dar boa impressão aos visitantes e desenrolar com bons modos o ritual todo – da chegada à partida.
Os visitantes usualmente chegavam aos domingos, pela manhã, se morassem um pouco longe; ou pela tarde, se fossem de vizinhos de perto. Eram recebidas pelos donos da casa – na falta deles, por algum adulto. Posteriormente, as crianças eram chamadas para dizer adeus – ou dar adeus – aos visitantes. Se fosse inverno, um licor de frutas, caseiro, era servido. Logo depois, fosse calor ou fosse frio, servia-se o chimarrão, que a pessoa tomava e devolvia a cuia, sem agradecer – o agradecimento significava que não queria mais mates.
Lembro-me que, após o chimarrão, vinha o momento em que se levavam as visitas para mostrar o jardim, a horta, o pomar ( arvoredo) e até alguns animais domésticos. Ofereciam-se mudas de plantas, sementes, algumas frutas – em pequenas quantidades, com elegância, para ser gentil, pois não se tratava de matar a fome de ninguém : muitas vezes ouvi essa explicação também na troca de presentes.
Ao retornar desse passeio ao entorno da casa, se fosse à tarde, servia-se  o café, sempre acompanhado de pães caseiros, roscas de farinha de milho, bolos ou bolinhos. Manteiga, mel,  geleias e queijos eram parte desse simples café, que se prolongava bastante, pela comida, que era muita, e pelas conversas bastante animadas.
Tenho bem presente a lembrança do pós-café. Os homens iam para mangueiras ou galpões ver as novidades agropecuárias, e às mulheres, mostravam-se álbuns de fotografia ou compras recentemente feitas na cidade. As conversas adultas aconteciam nesse momento. Era a hora em que as crianças saíam a correr e a brincar.
Nas despedidas, as visitas recebiam algum presente, que podia ser abóboras, mandiocas, batatas, verduras, frutas ou até mesmo charque ou linguiça. Não sei por quê esses presentes maiores eu os chamava  de presentes para estreitar relacionamento…Não sei se era desejo meu de conviver com a pessoa ou uma certa mesquinhez infantil. Sou mais pela mesquinhez – visitas me pareciam opressoras. Era bem mais divertido brincar com minhas irmãs, ainda que fizéssemos às vezes maldades umas para as outras….
Um dia talvez eu escreva sobre rituais de visita em comunidades bem diferentes da minha. Recordo-me, por exemplo, que, em alguns lugares do interior do Mato Grosso, assim que a visita chegava, perguntavam se ela queria tomar  banho – oferta divina naquele calorão! Acostumei-me, por isso , a carregar um vidrinho com shampoo na bolsa.
Alguém lembra de simpatias para que a(s) visita(s) não demorasse( m ) ? A pequena e fugaz lembrança que tenho disso, faz-me crer que nem toda visita era bem-vinda.

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