Natal e Saudades

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POEMA ENJOADINHO

rio de Janeiro , 1954

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinicius de Morais

Fabiana e Pedro

Li esse Poema Enjoadinhoquando eu não tinha filhos, quando a filha era eu ( … ) Achei-o bonitinho. Hoje ele me parece incompleto. Passa a fase de beber shampoo – e os meus beberam. Passa a fase da adolescência – belissima, mas mesclada de angústias e inseguranças…. Tornam-se adultos – a fase hoje das minhas crianças. E, então, vão embora! E têm que ir. Mas vem a saudade – essa saudade que me faz falta o poema referir.

Paulo de Tarso ( Patati ) e eu

Recordo quando Patati , que estava terminando a Universidade , reclamou do pouco tempo de que eu dispunha para estar com ele. E me disse: “logo eu vou embora e não teremos mais esse tempo para conversar e conviver”. A afirmação me pareceu estranha. Meus filhos sempre estiveram comigo. Eu sentia como se isso fosse para sempre. Já faz uns 20 anos que ele foi morar em Atlanta. Fabiana havia saído antes de Patati. Gugu saiu saiu alguns anos depois. Foram-se!

Gugu e eu

Aprendi com minha mãe que não se deve chorar facilmente. “Quem por tudo chora, por nada tem sentimento” dizia sempre ela. Eu raramente choro. Hoje, entretanto, chorei de saudades dos meus filhos. Recordei-os em todas as suas idades. Lembrei-me de suas histórias, de suas roupas, de seus brinquedos, de suas festas de aniversário, de seus problemas na escola, de seus amigos, de suas doenças, de suas alegrias, de suas dores, de suas paixões. 

Patati, eu, Gugu e Ryan ( meu filho canadense )

À saudade deles, acrescentei também a saudade de outros filhos que a vida me deu: Mile, Frederico, Fernando, Fabianinha, Cláudio, Edmara e os Fabricios ( o Menine e o do Canto ). Todos tão maravilhosamente diferentes entre si. Todos tão bonitos e tão boa gente. Todos, neste momento, geograficamente distantes de mim. Todos , contudo, tão presentes no meu afeto e nas minhas lembranças.

Mile e Fabianinha


Quando penso nos meus filhos, penso em meus erros e acertos. Nos erros, principalmente, embora a gente nunca consiga delimitar ou visualizar essa fronteira entre acerto e erro . Já faz alguns anos, recebi uma mensagem do Patati .Esquecendo os conselhos da minha mãe, chorei muito ao recebê-la! Deixo-a aqui para os meus netos ( licença, meu filho?):

Fabrício e Patati

A minha mae gosta de jardins e plantas. Em todas as casas que nós moramos, ela plantou um jardim enorme. Arvores frutiferas, flores, arbustos. Plantas que, depois de muitos anos, depois que a casa já tinha esquecido da gente, certamente dao frutas e alegria e sombra para pessoas que a gente nunca conheceu. Ela plantava sem nunca se perguntar para quem plantava ou quem colheria os frutos.




Massimo, filho do Patati





A minha mae gosta de gente. Por todos os lados onde ela passou, ela cultivou gente. Como plantar um jardim. Encontrar boas pessoas, colocá – las no lugar correto, dar as condiçoes para que cresçam, o apoio, o ombro para chorar quando precisam, o puxao de orelha quando necessario, principalmente o entendimento de que cada pessoa cresce diferente, e que o papel do jardineiro nao é de crescer a planta, é só de fazer o possível para que a planta possa crescer.




Fernando e eu

A minha mae gosta de ser mae. É a maior mae do mundo. É mae minha, do gugu, da Fabiana, do tio mile, da fabianinha, do fernando, do fabricio, de tanta gente que eu conheço, de outras tantas que eu nunca conheci. O mais incrivel é que mesmo tendo que dividir a minha mae com tantos outros filhos, eu nunca tive falta de mae. Sempre teve amor para todo mundo – e de sobra.




                                                                        Frederico, Lu e eu



Eu te amo muito Mae, feliz dia das maes!  Patati

Claudinho e eu
PS. Prometi a mim mesma que , neste difícil 2018, eu não diria “Feliz Natal” a ninguém. Sentiria saudades dos que partiram e agradeceria por eu ainda estar aqui. Prometi também que pediria a todos para não esquecerem que “um dia a mais de vida é um dia a menos de vida” e que não a desperdiçassem com eventos que se tornam insignificantes perto de grandes perdas…. Pensem que 2019 é apenas continuidade do que plantamos e do que somos. 
Pedro, meu neto.
” No todos los días son de sol
y la lluvia, cuando escasea, se ruega.
Por eso tomo la infelicidad junto con la felicidad
naturalmente , como quien no se sorprende
de que haya montañas y lanuras,
y de que haya rocas y yerbas…”
Fernando Pessoa
Gugu e Adriana

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